sábado, 24 de março de 2012

Meu nome é...Buk!...Leyla Buk.






Leyla Buk, artista em tempo integral. Pintora, ilustradora, designer e escultora. Atéia apaixonada pela liberdade e sexualidade. Inspirada pela cena subcultural, crânios, cigarros, BDSM, filmes e arte pornô.
A artista plástica maior de 18 anos que mora em Recife/PE presenteou o She Demons Zine e seus leitores com um belíssimo desenho da personagem símbolo do blog: Demonia. Prestigiem a arte e uma entrevista exclusiva logo abaixo:

Demonia - Sadistic Desires



Qual foi seu primeiro contato com as artes plásticas/artes visuais? Quando essas artes se evidenciaram em seu mundo? E em que momento você sentiu necessidade em se expressar como artista plástica?
Creio que a necessidade de auto-expressão é algo inerente ao ser humano, estamos sempre buscando alguma forma de fazer isso, e acho que criamos o tempo todo, mesmo quando não temos consciência disso. Meu contato com a arte existe desde que eu era criança. Meu pai não seguiu esse caminho, mas desenha muito bem. Chegou a pintar quadros abstratos como hobby, e me deu tudo o que eu precisava para desenvolver e jogar pra fora o que quisesse sair. Sempre fui inquieta, sentia a necessidade de criar, de expressar qualquer emoção, foi assim a infância toda, e desenhar me permitiu isso. Mas passei a me distanciar de tudo à medida que fui crescendo e virando uma adolescente meio problemática e mais interessada em desbravar o mundo e experimentar outras coisas. E fui atrás disso. Somente há três anos voltei a desenhar e comecei a pintar logo em seguida. Foi como uma redescoberta, algo que eu nem lembrava mais que fazia parte de mim. Agora me esforço pra conseguir o domínio certo e desenvolver o que faço da melhor forma. Minha confiança e estilo também vêm se aprimorando naturalmente, procuro sempre experimentar e evoluir, jamais fico satisfeita e isso contribui para não me deixar relaxar muitas vezes. Sofro com crises de ansiedade a cada criação nova e, de um modo louco, isso me faz sentir viva.


Como era Leyla Buk na escola (ensino fundamental e médio) em relação a arte? Dê sua opinião sobre o ensino da arte nas escolas.
Eu era uma das melhores alunas nas aulas de arte nos tempos de escola, não porque eu manjava de tudo, mas porque eu sentia prazer e interesse naquilo. Eram os momentos mais criativos e divertidos, embora tudo fosse muito limitado. Acredito que o maior problema que temos com relação a isso é a falta de estímulo e do reconhecimento da arte como uma manifestação essencial no nosso processo de desenvolvimento pessoal e linguístico. Existem muitas formas de se expressar pela arte, muitas linguagens, a maioria das escolas limita-se ao desenho simples e isso atrofia muito a criatividade e faz prováveis futuros artistas jamais se descobrirem e acabarem seguindo outros caminhos. Não foi o meu caso, porque sempre tive apoio dos meus pais fora dali e uma boa base, o resto eu segui por conta própria, reunindo conhecimentos e desenvolvendo meu próprio caminho. Escolhi não ingressar no meio acadêmico, sou minha própria professora, faço o que me parece certo e a cada criação vou refinando meu trabalho. É desafiador. Também procuro observar os que considero grandes artistas.  Na base da experimentação vou encontrando tudo o que preciso e me descobrindo, sem me prender a regras com as quais jamais me identificaria ou me adaptaria. Foi uma escolha que fiz e não me arrependo. Nas faculdades de arte os caras te ensinam algumas habilidades técnicas, mas ninguém vai te mostrar o caminho pra você ser você mesmo, muitos saem de lá apagados, cheios de técnica, porém, vazios de autenticidade e imaginação. Eu sempre busquei a autenticidade acima de tudo, quero apenas ser eu mesma.

Como é o dia-a-dia de uma artista plástica?
Nada extraordinário, mas tenho horários e rotina diferentes da maioria das pessoas que conheço. Sou extremamente notívaga, produzo a tarde e a noite, e só durmo quando amanhece. Não suporto manhãs, não sei o que fazer com elas, me deixam deprimida, melancólica, sei lá. Então pela manhã eu sempre durmo. Sou meio artholic, estou sempre criando e trabalhando em alguma coisa, exceto quando meu humor fica ruim. Trabalho em várias coisas ao mesmo tempo. Preciso criar, planejar algo novo sempre. Eu tenho um trabalho perfeito, só fico na mesmice se eu quiser. Sou muito reclusa. Raramente saio de casa, quando saio é pra ir até os bares/restaurantes que ficam na orla a umas duas quadras de onde moro, não vou à “baladas” e não sei nada do que se passa ou o que curte a maioria dos jovens da minha idade e, sinceramente, não estou interessada. Não suporto multidões e poluição sonora me deixa esquizofrênica, mal humorada, não sei... perco a razão. Todo mundo deve perder, na verdade. É só ir num centro comercial a qualquer dia da semana e metade da humanidade tá ali, alucinada, ninguém tem tempo nem espaço pra pensar em nada. Nunca consegui me adaptar a isso. Gosto de ficar sozinha, preciso de certa paz pra criar e muita gente em volta me tira isso, então estou sempre enfornada no meu ateliê, que é o meu quarto todo, trabalhando em alguma coisa. Mesmo quando não estou fazendo nada a cabeça tá absorvendo imagens e reunindo ideias que vão sair alguma hora. Ultimamente tenho desenhado muito, o processo do desenho é mais rápido, o que me permite fazer vários trabalhos em pouco tempo, diferente das pinturas que exigem tempo e cuidados maiores. Mas, além de desenhar, tenho trabalhado em várias coisas ao mesmo tempo. E entre uma peça e outra eu vejo filmes, leio bastante, atualizo minhas páginas na internet e planejo coisas.


Quais as maiores dificuldades que, na sua opinião, os artistas plásticos enfrentam para seguir na carreira?
O grande desafio é conseguir viver da arte. O trabalho é árduo para ter um pouco de reconhecimento e o valor real que a arte merece. É difícil vender um quadro pelo preço que ele realmente vale, a menos que o cara seja famoso. Poucos têm a sorte de conseguir viver da sua arte e isso é o que todos desejam. A coisa fica ainda mais difícil se o artista é autodidata e aborda temas pouco convencionais. Não é fácil achar espaços em galerias, lugares físicos para exposições, etc. Mas procuro não depender de nada disso. Ainda estou começando, tenho muita coisa pra fazer e um caminho longo pela frente. Minha preocupação maior é a de evoluir no meu trabalho, ir construindo meu próprio caminho e conquistar o meu espaço. Hoje em dia, a internet, com todas essas mídias sociais, acaba se tornando uma aliada, uma saída direta e acessível que facilita bastante na divulgação. É como promovo meu trabalho. Todo artista quer mostrar sua obra, já vi muitos reclamando do quanto é difícil conseguir ser visto. Expor em grandes galerias não é meu objetivo principal, e, felizmente, tudo o que tenho feito tem chamado a atenção e despertado o interesse de algumas pessoas, e cada vez mais. O mais importante é trabalhar duro, divulgar da forma que puder e estar atento às oportunidades que surgirem.





Quais são as técnicas que você usa para expressar suas ideias, sentimentos e percepções a cerca do mundo? Você se especializou em alguma técnica em especial? Faz outras experimentações?
Bem, nesse momento, eu pinto quadros usando a técnica acrílica sobre tela. Gosto de trabalhar com tinta acrílica, apesar da secagem ser muito rápida, tenho conseguido o resultado que busco. Também pinto camisetas à mão. Faço ilustrações usando basicamente tinta nanquim e grafite. Faço bem poucos desenhos coloridos, minha preferência é o preto e cinza. Há pouco tempo comecei a personalizar móveis pra decoração usando a técnica de colagens, e, finalmente, faço modelagem em porcelana fria, mas esse último ainda é apenas um hobby. Às vezes trabalho em várias peças ao mesmo tempo, descansando de um trabalho com o outro. Pintar e desenhar são ainda minhas prioridades. Sem dúvida, é o que mais gosto de fazer e o que faço melhor também. Como passei muito tempo afastada disso precisei começar quase do zero, correr atrás do tempo perdido. Preciso praticar sem parar e tenho feito isso. Pintar um quadro é um processo mágico, são diferentes níveis de emoção. Cada peça passa por transformações incríveis até o momento final. E eu passo por diferentes estágios de neurose, negação, insatisfação, estranhamento e psicose até chegar à satisfação real, (risos). É bem intenso, mas no final dá tudo certo.

















Como surgiu a ideia de usar camisetas como tela para suas pinturas?
Surgiu da mesma forma que surgiram todas as outras coisas que faço: da necessidade de fazer algo novo e experimentar outra forma de arte, de me desafiar, não parar e de fazer algo que vendesse com maior facilidade. Deu bem certo, mais uma vez as pessoas se interessaram e tenho recebido bastante pedidos.


Como é feita a produção das camisetas?
As camisetas são 100% artesanais. Pinto à mão, não uso telas, faço um esboço num papel e uso como padrão pra todas as estampas. Cada estampa tem seu padrão, logicamente. É um trabalho que exige cuidado, se errar, fodeu. No começo eu errava bastante, mas agora tenho me saído bem. Acho que aprendi a ter calma. Pretendo mudar de técnica em breve e começar a fazer silkagens, assim a produção vai ser maior e mais rápida, o cliente terá opções mais variadas de estampas e tudo à pronta entrega, sem contar que isso vai me deixar com mais tempo livre pra me dedicar a outras coisas. 



















 

Além das estampas que você cria você também produz de acordo com qualquer desenho que o cliente pedir?
Já tentei fazer, até mesmo com quadros, mas não consigo ficar presa a isso. Já abri algumas exceções e me arrependi em todas elas. É raríssimo eu aceitar algo assim, depende muito do pedido e da liberdade que vou ter para trabalhar em cima. Por enquanto é só o que está no catálogo. Mas muitas estampas novas virão e isso vai aumentar as opções. O Petter e eu estamos planejando coisinhas e em breve teremos algumas novidades por aí. É só aguardar. 



Nós do She Demons Zine já temos nossa camiseta Leyla Buk
  
Existe alguma pessoa do seu convívio em que você se inspira ou que te incentiva de alguma forma?
O Petter me inspira muito. É um dos artistas que mais admiro, não falo só porque ele é meu namorado, mas porque ele traz consigo as principais características que admiro em alguém e que, na minha opinião, são fundamentais em qualquer artista. Ele é autêntico, original, criativo e espontâneo. É honesto consigo mesmo, com o que acredita. É extremamente inteligente, determinado e tem um senso de humor fantástico. Isso tudo reflete na arte, nos filmes que ele faz. São qualidades que me motivam, me encantaram desde a primeira vez que conversamos e que tive contato com as produções da Canibal. Ele e meus pais formam o trio das pessoas mais amáveis e que mais me apoiam e dão força no mundo. Tenho muita sorte!



Você possui algum modelo ou influência de algum outro artista?
Schiele é um dos meus preferidos. Sou apaixonada pelos traços distorcidos, a decadência, cores e toda a carga emocional que existe nas suas criações. Sou uma profunda admiradora da obra e da vida dele. Gosto muito de caras como Klimt, HR Giger, Andy Warhol, Crumb, Manara, Crepax,. Também sou influenciada por alguns cineastas, músicos, escritores e tatuadores. Tem gente fazendo arte empolgante e original por todo lugar e de muitas formas que emocionam.
Klimt 


Egon Schiele



Obras de artistas que influenciam Leyla Buk


Crepax



Dominação e submissão, bondage e outros fetiches, algumas parafilias, crânios e cigarros são temas constantes nas suas ilustrações e pinturas. Fale-nos sobre seu processo criativo.
Sou admiradora de praticas BDSM, de fantasias e dos mais diversos fetiches, principalmente os japoneses, tento ver todo o tipo de filme pornô fetichista que venha de lá e adoro todos, dos mais simples aos mais bizarros. Sou fetichista, na verdade. Não faço disso uma filosofia de vida (ou de cama), mas adoro experimentar e alimentar alguns. De uma forma geral, me interesso por tudo aquilo que foge do convencional, principalmente a sexualidade. Todo mundo tem um lado que foge à regra. Muitos exprimem, outros preferem reprimir ou sequer se dão conta de que ele existe. Procuro personificar algumas dessas emoções e desejos através das mulheres que pinto ou desenho, busco explorar e incorporar isso na minha arte cada vez mais. Com o cigarro é bem simples, sou fumante! Tenho crises de ansiedade e isso aumenta consideravelmente quando começo um trabalho novo. Quanto mais ansiosa fico, mais eu fumo, então o cigarro tá do lado o tempo todo em que estou criando, acho justo que ele seja retratado ali. Também é uma das minhas formas de protestar contra essas perseguições e proibições anti-fumo extremamente hipócritas que andam acontecendo nos últimos anos. Um grito pelo direito de escolha, por liberdade de decisão. Os crânios são uma obsessão que tenho há bastante tempo, começou com uma fixação pela morte que alimentei na adolescência. A morte é um tema que me atrai, as caveiras têm muitos significados, mas significam, sobretudo, nossa condição de mortal, isso mostra o quanto somos frágeis e impotentes, e não importa o tipo de coisa que inventem, que queiram ser, que tentem se apegar ou acreditar para servir de consolo com relação a isso. O fim é inevitável. É algo que passa pela minha cabeça o tempo todo e me faz querer aproveitar esse único e pouco tempo que tenho aqui pra fazer coisas que pra mim valham a pena. Sem contar que a anatomia do crânio é linda, tenho três tatuados no corpo e me sinto confortável com elas presentes nos meus trabalhos. Tudo isso é uma parte de mim, estou cercada por todas essas coisas. Não pinto ou desenho nada que não faça parte da minha vida de alguma maneira.


Você fez ilustrações para alguns filmes de Petter Baiestorf, conte-nos sobre essa experiência, como foram os trabalhos (processo criativo etc.) e como é trabalhar em parceria com um dos diretores mais importantes e conhecidos do cinema underground.
Há algum tempo venho fazendo trabalhos em parceria com o Petter  e a Canibal Filmes. Comecei com o “Ninguém Deve Morrer”, em 2009, onde fiz desenhos pros créditos do filme. Era um duelo faroeste, com cenários, homens maus e cores, ou seja, tudo coisas que não curto fazer e que não são o meu forte (risos). Nunca tinha feito nada parecido e nem sabia como fazer no começo. Me acabei no cigarro! Mas aceitei esse desafio e gostei. Foi um exercício interessante e divertido, e acho que o Petter adorou o resultado porque é o que ele me fala sempre (risos). Em 2010 fiz uma série de desenhos eróticos inspirados nos catecismos de Zéfiro pra uma cena do filme “O Doce Avanço da faça”, esse foi com estilo bem diferente do meu e foi tesão demais trabalhar nisso, passar horas vendo fotos de trepadas, estudando posições de trepadas, desenhando trepadas... O resultado ficou lindo depois de editado no filme. Fico orgulhosa e honrada sempre que vejo. Aliás, também fiz a capa pra esse filme, ele ainda não foi lançado em DVD, mas quando sair todo mundo vai poder ver minha arte também na capa. Esse ano temos uma nova parceria juntos, temos várias, pra falar a verdade, mas não posso adiantar nada por enquanto. Fazer todos esses trabalhos é uma honra pra mim, pois sou fã da Canibal Filmes, me identifico com a filosofia de tudo o que sai de lá. Gosto de trabalhar com pessoas motivadas e apaixonadas pelo o que fazem. O Petter é livre e compreensivo. É extremamente responsável, uma pessoa de palavra, e a gente tem uma relação de amizade, companheirismo e cumplicidade muito forte, então é bem fácil fazer qualquer coisa juntos. Vou parafrasear alguém (no momento não lembro quem) que disse algo sobre nossos trampos juntos e é exatamente o que sinto e penso: “um trabalho enaltece o outro”.



Já chegou a desistir ou deixar de lado, mesmo que temporariamente, algum de seus trabalhos?
Eu tenho várias telas abandonadas ali no canto da parede, umas porque perdi o interesse e outras porque não deram certo. Acho que isso acontece com todo pintor. Como experimento bastante, algumas coisas não funcionam, ou simplesmente funcionam, mas não acho o resultado satisfatório, digno de ser mostrado, então deixo de lado por um tempo até decidir o que fazer, geralmente reaproveito a tela. Também tenho muitas coisas paradas que pretendo terminar um dia. Meu maior desafio é conseguir passar pela fase do estranhamento, sempre que começo um quadro passo por isso, o momento de achar estranho, impossível ou que estraguei tudo.  Não adianta, é algo que sinto sempre. Mas aí o trabalho começa a progredir, tomar forma e a encontrar os lugares certos. São coisas da minha cabeça, e é totalmente emocional. Mas faz parte da minha forma de criar. Bem, aquilo que eu achar que vale a pena vocês sempre verão por aí.


























Cada obra tem um significado especial, mas claro, sempre tem aquela que mais deu trabalho, aquela que foi um desafio maior, aquela que você mais ficou ansiosa para terminar logo. Quais foram essas?
“A Faca”, sem dúvida. Com esse quadro eu dei um salto enorme em qualidade e descobri coisas que venho incorporando em outros trabalhos. Gosto da composição, das cores, dos efeitos e iluminação dele. É um quadro que pintei com mais cuidado e decidida a fazer melhor que tudo o que já tinha feito antes. Aprendi muito no processo todo, inclusive a ter calma na hora de pintar. Posso exagerar e dizer que minha vida de pintora divide-se entre antes e depois desse quadro?

Existe algum, dentre seus muitos trabalhos, que você mais gosta?
Meu preferido é sempre o que acabei de fazer, porque cada trabalho novo me traz uma nova visão e descoberta. Atualmente ando apaixonada por minhas últimas ilustrações que compõem a série “Tudo de Mim” (*CLIQUE AQUI PARA VISUALIZAR*). Foi um exercício de criatividade onde acabei encontrando meu estilo. Além do mais, são imagens que falam muito sobre mim e minhas emoções. É uma série muito pessoal. É dividida em duas partes e em breve publicarei a parte dois, já comecei a trabalhar nela.
Nas pinturas,A Faca”, por tudo o que falei na pergunta logo acima ainda é o meu preferido. Mas espero que não por muito tempo. Estou tentado superar ele.



Qual a maior satisfação que a sua carreira te proporciona?
A liberdade de ser eu mesma e de poder expressar todas as minhas emoções reais e fantasias sem medo. Eu não sei fazer nada que não me dê o mínimo de liberdade, sou assim em todos os aspectos da minha vida e é algo que não abro mão. Tudo o que faço me completa de alguma forma e me mantém livre da psicose extrema. Tem um documentário sobre o Robert Crumb que começa com uma frase onde ele diz “se eu não desenhar um pouco, eu enlouqueço” ou algo assim, e é exatamente o que sinto. Me sinto morta, esvaziada quando não estou produzindo alguma das coisas que faço. Não sei o que seria de mim se eu não fizesse isso, provavelmente eu já teria morrido bêbada por alguma esquina ou me matado de algum jeito.






Já usou algum filme/livro/música como forma de inspiração ou referencia à algum trabalho? Quais?
Tenho alguns quadros inspirados em filmes. Alguns exemplos são o "Never Forget, Never Forgive.", de 2010, onde usei como fonte o filme ”Ilsa, She Wolf of the SS”, um nazisploitation de 1975. Mas a minha Ilsa é uma caçadora de nazistas, uma vingadora impiedosa que usa a arma dos inimigos contra eles próprios. Eu adoro esse quadro, nem tanto pelo resultado final, mas pelo processo todo que foi pintá-lo. O "Para Madeleine" foi inspirado por um pornô japonês chamado “Semen Maniac” e tem uma singela homenagem ao “Thriller, A Cruel Picture”. Também pintei o “Palhaça Triste” pra homenagear o “Palhaço Triste” de Petter Baiestorf, um filme que admiro e que naquele momento fazia todo o sentido do mundo pra mim. Tem muito mais coisas... Tenho trampos inspirados em obras do Mojica, Sade, Masoch, filmes clássicos de terror, Bowie, cena punk... enfim. Toda arte que me emociona acaba me inspirando em algum momento.

 



























Você costuma ouvir música enquanto trabalha ou prefere o silêncio absoluto?
Ouço música o tempo todo e algumas vezes deixo algum filme rodando enquanto produzo. Se meu humor não tá bom, trabalho em silêncio, o que é mais difícil rolar porque quando meu humor tá ruim raramente consigo fazer algo. Ouço bastante jazz, punk rock, David Bowie, Einstürzende Neubauten e Maria Callas enquanto trampo.





Ouvi dizer que o “Buk” em seu nome artístico é em homenagem ao escritor Charles Bukowski, verdade? O que, em especial, mais lhe atrai e agrada na obra de Bukowski?
Sou fã do estilo livre, da espontaneidade e da honestidade do trabalho dele. A crueza e falta de cuidados em mostrar o lado mais fedido do mundo, das pessoas e dele próprio. Sabia ser sensível e profundo sem ser pomposo. Os seres humanos adoram se pintar como perfeitos, poderosos, superiores, intelectuais, e a maioria não é nada além de um poço de pretensão nojenta, fodida e fútil. Descobri o “Misto Quente” numa época onde tudo o que li coube perfeitamente na fase que eu tava passando, triste, bêbada, depressiva, sem perspectiva alguma. Foi identificação imediata. A partir daí adotei o Buk no nome e era apenas como uma brincadeira, usava como um nickname, e acabou pegando muito fácil, muita gente passou a me chamar apenas de Buk, chegava nos lugares e já gritavam “Buuuuk!!!”, não larguei mais. Buk é um nome lindo! O Bukowski é livre de toda essa hipocrisia da perfeição. Admiro essa liberdade, é uma característica rara na maioria das pessoas. É o meu companheiro de copos e aventuras decadentes, só que a gente se perdeu no tempo e espaço, infelizmente.



O que você mais gosta de fazer quando não está trabalhando?
Gosto de ficar vendo filmes, de beber, fumar, ler, cozinhar, tomar chá, jantar fora e ver documentários sobre bichos.


Você é talentosa também na arte de cozinhar? Quais seus pratos preferidos?
Adoro cozinhar.  Tenho um apetite instável, o que me faz ter uma fome sem fim algumas vezes e ausência total de apetite em outras. Mas nos momentos de apetite voraz eu cozinho bastante. Prefiro salgados, não curto muito doces. Gosto de comida feita com vontade, com capricho. E me saio bem na maioria das vezes. Juro que eu poderia trabalhar com isso, poderia ser uma picadora de cebola ou fazedora de molhos para massa (risos). Adoro massas e meu prato preferido é ravióli de tomate seco, com provolone e catupiry e um molho a base de vinho. Yummy!!!


Quais os gêneros de filme que você mais curte? Atores, atrizes, diretores preferidos.
Não tenho gêneros preferidos, tem filmes maravilhosos em todos eles e gosto de muita coisa. “Yuke, Yuke, Nidome no Shojo”, de Kôji Wakamatsu, é um dos meus preferidos de todos os tempos. Por esses dias revi dois que considero geniais e estão entre os meus favoritos, “The Seventh Seal” e “Begotten”. Sempre revejo esses três filmes quando estou mais introspectiva. Tem uns filmes que revejo várias vezes por ano, várias vezes numa mesma noite até, não dá pra citar tudo aqui. Às vezes, quando estou bêbada, me bate uma síndrome de repetição e começo a repetir sem parar músicas ou algum filme que eu goste muito. Quem já bebeu comigo sabe, hehehehe.  Todo ano preciso rever flmes como “Liquid Sky”, “Velvet Goldmine” “Aftermath”, “Evil Dead”, “Sedmikrasky”, fora filmes de zumbis, clássicos de horror e pornô de todos os tipos. Ultimamente ando apaixonada pelo Ingmar Bergman, ele aborda temas pelos quais sou fascinada e ando empenhada em ver o máximo de filmes dele que eu conseguir esse ano. Gosto muito das musas Bette Davis, Barbara Steele e Alla Nazimova e acho o Vincent Price genial!







Uma cena de filme que te marcou de alguma forma.
A cena final do “Yuke, Yuke, Nidome no Shojo” que não vou descrever porque vai ser spoiler pra quem não viu e quiser ir atrás do filme, mas é uma cena que me emociona sempre. Aliás, esse filme todo me emociona pra caralho.


Uma cena de filme que te deu muito tesão.
Ai, que difícil... São muitas! Nem sei se consigo responder. A maioria dos pornôs dos anos 70 tem um clima lindo e que me excitam bastante, Annette Schwarz tem uns filmes que me deixam cheia de tesão na maioria das cenas, mas ainda não descobri se me excito por causa da cena ou por causa dela. Lembro agora de uma cena doente do filme “Aftermath”, quando o legista bate punheta pra morta e a seguinte onde ele corta e fode o cadáver até gozar. Cenas de necrofilia sempre são excitantes demais. Qualquer cena de sexo oral bem feito ou de sadomasoquismo me dá muito tesão também.



Você é alternativa em tudo ou também tem um lado papai-mamãe?
Eu não sei... Não sei o que as pessoas entendem por “alternativa” ou “papai-mamãe”... Deixo esses rótulos pra aqueles adolescentes que ainda estão em fase de querer provar algo pra alguém. Tenho algumas ideias, gostos e práticas que, creio, são diferentes das de boa parte das pessoas que conheço, e é isso. O resto é só rótulo besta.
O que um homem precisa fazer para te conquistar? Quais as características que mais te agradam e impressionam?
Gosto de homens maduros, criativos e com senso de humor inteligente. Ele só precisa ser ele mesmo. Me apaixono por pessoas autênticas e espontâneas, que assumem o que são sem se importar com o julgamento alheio, homens sem maturidade emocional não conseguem ser assim, então essa acaba sendo a primeira característica que busco. Muita libido e muita barba são coisas super bem vindas. Mas já tenho na minha vida uma pessoa que preenche todos esses requisitos (risos).
Quais os tipos de homens que definitivamente não tem chances com você?
Os que são o meu oposto. Não falo tanto de personalidade, mas de cultura, gostos e ideias. Não sinto atração por homens que não tenham nada a ver comigo. Pra mim, o máximo de afinidade é fundamental. Não suporto machismo, irresponsabilidade e imaturidade. Me interesso muito mais por ideias e personalidade do que por físico. Aliás, ratos de academia não têm chance nenhuma, pode ser um preconceito, sei lá, mas é algo que logo de cara me repele, acho broxante. Prefiro os naturais, mais preocupados em malhar o cérebro e a criatividade e interessados em exercícios mais prazerosos, se é que me entende (risos). Homens inteligentes me dão tesão!


O BDSM está bastante presente nas suas obras. E na sua vida pessoal, curte sadomasoquismo, bondage, “brinquedinhos” sexuais, etc.?
Curto experimentar. Sou aberta a muitas coisas. Alimento alguns fetiches, algumas coisas me despertam curiosidade e me excitam. Vou à Sex Shop sempre que dá, procuro novidades e brinquedinhos divertidos, de vez em quando gosto de inventar historinhas e fantasias eróticas e pô-las em prática na hora do sexo, tenho alguns acessórios SM, gosto de colecionar essas coisinhas e de usar quando o momento pede.  Tudo depende muito do clima e disposição na hora. Mas adoro sexo que não envolva nada disso também, os fetiches e acessórios não são indispensáveis, algo que preciso fazer pra obter prazer e satisfação, é mais como fantasias que todo mundo adora realizar de vez em quando. Não troco o pau, dedos, boca e o corpo disposto e cheio de vida e vontade do meu namorado por brinquedinho nenhum.




O que te broxa no sexo?
Falta de entrega e criatividade, frescura e moralismos bestas.

Uma fantasia...
Qualquer coisa num porão cheio de apetrechos para torturas sexuais.

Uma boa trepada...
Gosto de sexo indecente, sujo e intenso, feito com vontade, disposição, dinamismo. Independente se vai ser selvagem ou calminho, tem que ser feito com paixão e sem frescuras.

Sexo tem limites?
Desde que não envolva inocentes, crianças ou animais, tudo é discutível e experimentável. O limite é aquele que o casal estabelece junto. Gosto de experimentar.




Como foi a sua educação nestes aspectos, sua família foi mais liberal ou foi repressora?
Tive uma educação bem livre em todos os aspectos. Foram me dadas todas as informações necessárias e o direito de escolha no final de tudo. Tenho pais maravilhosos, que respeitam minhas decisões, minhas escolhas e me apoiam sempre. Meus pais não são religiosos nem presos a tradicionalismos, são as pessoas mais gentis que conheço e me ensinaram a respeitar o espaço alheio. Sou apaixonada por eles!

Em poucas palavras, defina Leyla Buk.
Em duas palavras: pavio curto.



Resuma o significado de ARTES na sua vida.
Não consigo pensar em outra palavra que não seja liberdade. Sou uma pessoa extremamente sensível e sinto tudo de uma forma muito intensa, seja bom ou ruim. A arte me ajuda com isso tudo, a expressar muitos sentimentos e me permite algo que considero crucial na vida: ser livre. Posso lidar com todo o tipo de pensamento, ideia, frustração, perturbação, aspiração ou qualquer outra emoção e abordá-la como eu bem entender, sem nenhuma restrição ou intervenção externa. Não há nada no mundo que eu busque mais, não há nada no mundo que me faça sentir tão realizada.




Para encerrar, sinta-se a vontade para dar a sua opinião ou informação que não foi revelada pelas questões anteriores e que considere importante ou simplesmente queira dizer. Ah, e deixe contato de site/blog ou afins para que os leitores do SHE DEMONS ZINE possam conhecer melhor seu trabalho e entrar em contato.
Só quero agradecer ao She Demons Zine pelo espaço. Toda divulgação é bem vinda!
O Petter e eu temos um blog sobre cultura underground, cinema, quadrinhos, fanzines, música, eventos independentes, nossa arte, culinária vegetariana e putarias diversas.

Quem quiser visitar, é aqui: http://canibuk.wordpress.com
Também tenho um Tumblr onde posto tudo relacionado a minha arte, é só seguir:  http://necrochorume.tumblr.com/
E minha página no facebook que atualizo sempre que tem um trabalho novo: https://www.facebook.com/LeylaBukArtwork





9 comentários:

  1. ótima entrevista, a leyla desenha pra caralho, além de ter ótimas idéias e ser intligente.

    coisa rara encontrar gente assim hoje em dia...

    ResponderExcluir
  2. Adorei............uma grande artista,parabéns diva seu trabalho é nota mil

    ResponderExcluir
  3. E a Leyla tem uma sensibilidade incrível para pegar pequenos nuances e detalhes e incorporar nas ilustrações que faz. Editei quadrinhos durante uns 15 anos de minha vida e isso, essa percepção aguçada, só se vê em grandes artistas! Acho o trabalho dela único e incrível! Amo essa garota!
    Petter Baiestorf.

    ResponderExcluir
  4. Adoro a arte dessa moça!!!!!!!! Adoro ela também, a sua sensibilidade, a sua amizade... sou fã...

    ResponderExcluir
  5. é feia maxxx desenha bonito

    ResponderExcluir
  6. Linda e talentosa! Difícil achar pessoas assim aqui no Brasil. Parabéns!

    ResponderExcluir
  7. Gostei muito da entrevista! Leyla é autêntica e de um talento incrível.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...